Não sabíamos porque não foi divulgado nos créditos de produção, mas um brasileiro teve papel importante na construção da figura digital de Aslan, o nome dele é Rodrigo Teixeira. Confira e entrevista feita pelo jornal Zero Hora:
O contato começou pelo Facebook, emendou numa trocas de e-mails, não rolou pelo Skype e finalmente se deu por telefone, em três brechas que se abriram na apertada agenda de Rodrigo Teixeira: por volta de 3h da madrugada de quarta-feira, às 4h de quinta e às 3h de ontem, no fuso de Los Angeles, seis horas atrás do horário brasileiro de verão. É quando ele costuma se desligar do trabalho – no momento, integra o time responsável pelos efeitos visuais do filme Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton. Confira a seguir trechos da entrevista com o artista gráfico gaúcho que trabalha em Hollywood.
Zero Hora – No filme 2012, você é creditado como “senior lighting technical director”. Traduzindo, que função é essa?
Rodrigo Teixeira – Sou responsável por criar efeitos de iluminação de texturas para determinadas sequências. No meu caso, sou responsável pela destruição de Los Angeles e Las Vegas. Muitos filmes contam apenas com cenários digitais, sem nenhum cenário, então profissionais como eu assumem responsabilidades artísticas parecidas com as do diretor de fotografia. São novas funções criadas pelo cinema digital.
ZH – No seriado True Blood, você aparece como “visual effects compositor”. E essa?
Rodrigo – É quem uniformiza. Compõe, numa sequência, imagens de diferentes fontes, como o ator diante da tela verde, o cenário virtual e os efeitos gráficos, elementos que serão fundidos na mesma cena.
ZH – Em que etapa da realização você começa a trabalhar?
Rodrigo – Em geral, desde o início, já na fase de roteirização, pois é um trabalho que vai influenciar no orçamento do filme. Tem aqueles trabalhos em que você é chamado para um função específica, com a produção já em andamento. No primeiro As Crônicas de Nárnia (2005), fui contratado para integrar uma equipe que já estava há dois anos trabalhando apenas na figura do leão digital. Tem ainda o chamado “trabalho 911”, a emergência, que é para resolver algo que não funcionou como deveria na filmagem. Não costuma ser creditado, pois ninguém gosta de assumir que não fez algo direito e que vai trazer um custo não previsto para o orçamento. Já fiz alguns desses, mas não posso dizer em que filmes foram (risos).
ZH – O potencial do que é possível fazer na área dos efeitos visuais está próximo do limite?
Rodrigo – Não existe limite. Perto do que existia quando comecei, a tecnologia de hoje é um sonho. A tecnologia evolui em curva exponencial. Quanto maior essa evolução, mais perfeccionistas e exigentes se tornam os criadores. Em O Dia Depois de Amanhã alguém observou: “Puxa, esse concreto não está se comportando como deveria numa situação como essa”. Aí começa de novo, até acertar.
ZH – Existe um trabalho que seja mais desafiador do que outro?
Rodrigo – Parece mais fácil quando você cria algo sobre o qual não exista referência, como o mundo novo criado por James Cameron em Avatar (superprodução de ficção científica que deve estrear em dezembro), no qual você pode usar toda sua imaginação. Quando você trabalha com elementos reais, como cidades e pessoas, caso de 2012, é mais complicado. O efeito tem de ser muito mais realista.
ZH – Como você avalia esse nova aposta no cinema 3D?
Rodrigo – Sou um entusiasta do 3D. Em As Aventuras de Sharkboy e Lavagirl, do Robert Rodriguez, trabalhei com 3D ainda naquele formato antigo, que nem se compara com o atual. Acho que veio para ficar, não apenas no cinema, mas também em transmissões esportivas e de shows. Vi cenas em 3D da Olimpíada de Pequim e foi deslumbrante. Estou trabalhando com 3D agora, em Alice no País das Maravilhas, do Tim Burton.
ZH – Fale sobre esse trabalho.
Rodrigo – O que posso dizer é que trabalho nos efeitos de iluminação, passo até nove horas por dia dentro do cinema revisando cenas e mais outras tantas horas em videoconferências. Tim Burton é um diretor com uma marca visual muito forte, a gente sabe do que ele gosta.
ZH – Qual o melhor efeito visual? O espetacular ou o imperceptível, aquele que o público nem desconfia que foi um truque?
Rodrigo – O mais legal é o efeito invisível, aquele que nunca o espectador vai saber que é um efeito. Como substituir o dia pela noite, o sol por nuvens, ou o chamado efeito cosmético, que é interferir diretamente no corpo do ator.
